quarta-feira, novembro 16, 2005

Quem sonha esclarece dúvidas!

Hoje tive um sonho estranhísssimo. Definitivamente o meu imaginário anda a brincar comigo... e eu ralado! Acordei a rir e cá na terra ninguém disperdiça diversão ou sombra, qu’o Alentejo não é terra para brincadeiras embora haja quem faça piadas com isso. Fiquem c’o sonho qu’eu vou procurar uma sombra.

Estava eu a dormir vai pr’a umas três horas quando assim de repente, como o vento das searas, m’aparece um cenário ainda mais desolador qu’o meu Alentejo. Já tinha visto aquilo na caixa dos Chocaospitos, ou lá como se chamam o raio dos cereais, qu’a Etelvina gosta de comer logo pela manhã. Ela costuma dizer, “quando estou afrontada preciso de recuperar as forças e tu afrontas-me como ninguém”. Exagero o dela, eu até posso ser feio mas não afronto o meu senhorio quando tenho a renda em atraso, quanto mais uma mulher que só d’a olhar fico sem fôlego.
Dizia eu qu’o cenário era o do Chocaospitos, uma savana debaixo d’um sol abrasador.
No cimo d’uma árvore estava um peixe; não era um peixe grande mas era vistoso. O olhar dele era triste, a árvore onde vivia cheirava demasiado a maresia o que afastava o resto dos animais. Fugiam todos d’aquele aroma nauseabundo pelo qu'ele acreditava qu’era o rei da selva. Ainda tentou imitar o som gutural do Tarzan mas as guelras ficaram afónicas. Assim, sozinho, decidiu mudar de vida. “Se estou n’uma árvore é porque voo, devo ser um bacalhau!”.
Primeiro tentou pôr um ovo sem sucesso, depois, imitando um bacalhau aberto e salgado, saltou d’árvore num voo planado que só terminou num choque frontal com um penedo. Tal como nos filmes o peixe levantou-se logo sem vestígios do acidente. “Porra, que tombo!”, e dito isto suspeitou que não seria pássaro ou galináceo. “Maldito destino este que me nega a identidade!”, frase que me recordo de ter lido num trecho qualquer do Será Mago. Olhando-me de frente pergunta, “quem sou eu, quem sou?”.
Um sapo que por ali passava aliviou-me a resposta. Olhou-o e, percebendo a sua angústia, disse-lhe, “mas tu és um peixe! Crouac!”. A objecção foi pronta, “um peixe? Mas eu tenho medo d’água... não sei nadar!”. O sapo entediado com a explicação diz-lhe, “olha, se não sabes o que és então deves ser uma mulher...”. Agora o peixe estava atónito, a boca já não se abria e fechava em movimentos regulares, chegou mesmo a entrar-lhe uma mosca qu'ele não aproveitou. “Não posso ser mulher, as minhas barbatanas não se aguentam em sapatos de salto alto”. Era este o momento qu’o sapo esperava, seria demolidor, cáustico. “Serás homossexual? Tens fetiches com roupa feminina e não sabes o qu'és! Crouac! Crouac!”. O peixe ficou desolado, agora sim tinha uma resposta bem diferente daquela que procurava.
Desesperado, subiu à árvore e deixou-se cair renunciando à sua condição. Passados uns breves instantes acordou e viu qu’apenas tinha algumas escamas partidas. Vendo-se livre do perigo percebeu qu'o seu destino era pregar a igualdade, ele não era diferente dos outros, essa seria a mensagem. Fez-se franciscano e assim andou durante anos a espalhar a palavra.
O sapo, que por alguma estranha razão continuava a meu lado, olha-me e afirma “a ignorância esclarece muitas coisas... Crouac!”. “Pois, mas eu não vou beijar-te! Hás-de morrer sapo!” e acordei com a Etelvina aos berros “não sei quem sou?! Tás-me a chamar o quê?!”. Eu e a minha boca grande... só me falta ser peixe! Por falar nisso, o que faço eu em casa d’Etelvina?
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11 Comments:

Blogger legivel said...

Um "um quadro" surrealista com um sabor a maresia que não é brincadeira. O autor, constrói um "cenário" quase bíblico (embora seja claro que a acção se passa no mercado da Ribeira) levando o leitor a "engolir sapos" porque se imagina a deglutir uma bela posta de garoupa com todos.
O final é definidor de uma linha social-populista onde a "mulher é que paga as favas" quiçá por carenciar de uma cirurgia plástica.
Manoel Oliveira (se não fôr aconselhado pelos franceses, antes) talvez se decida a partir deste texto, fazer mais uma fita para ser concluida daqui a cinco anos.


Joe Legível
Crítico lierário.

11/16/2005 11:39 da manhã  
Blogger legivel said...

O comment ficou com algumas gralhas fruto da pressa danada que eu tinha para tratar de um assunto urgentíssimo.
Assim, onde se lê Um "um quadro"... (que seriam dois, deve ler-se Um "quadro"....

e... crítico literário e não lierário.

11/16/2005 5:21 da tarde  
Blogger mfc said...

Mas que raio fazias tu na casa da minha Etelvina????!!!!

11/16/2005 8:21 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

ola.
venho agradecer-te a visita como e da praxe aqui no sitio.

os sonhos sao sempre muito estranhos.por causa di Id, esse gajo, que so faz o que lhe da na gana.

abraço da leonoreta

11/16/2005 8:51 da tarde  
Blogger Mikas said...

Mas o que é que tu andas a tomar pá???!

11/16/2005 10:16 da tarde  
Blogger Mikas said...

Não percebi o comment k fizeste no meu blog, o último? tens curiosidade d k?

11/16/2005 11:01 da tarde  
Blogger Mikas said...

Do que ando a procura... o engraçado é kem me deu o nome de mikas foram 2 amigas minhas alentejanas, de ferreira hehe pois eu ando a procura de mim... e dos outros. uma busca incessante de algo que ainda n descubri o k é.

11/16/2005 11:42 da tarde  
Blogger MWoman said...

Isso pergunto eu: que fazes tu em casa da Etelvina, gajo?

Vê se voltas para casa, pá, antes que faça aqui uma peixeirada!!! Ai dou-te o peixe, dou!

11/16/2005 11:51 da tarde  
Blogger UGAJU said...

legível: haverá algum sonho que não seja surrealista? Qu'a Ribeira é o cenário... claro, carago! (dito com sotaque alentejano). O Manuel d'Oliveira? Mas esse gajo só faz filmes d'acção e isto é pr'a levar devagar, sono retemperador dura pr'aí umas 8 horas. E s'a fita demorar 5 anos a produzir o realizador vai receber o prémio em Paris (o único sítio do mundo que o entende; agora com os motins percebe-se... fartaram-se!). Eh pá, não precisavas de te justificar porque quem se chama legível jamais será incompreendido!
Grande abraço

mfc: porra! tu és o Mário qu'anda às avessas com o sr. Cura? Ai que fui apanhado...

leonoretta: topaste tudo! Pela perspicácia venha daí um abraço.

mikas: pareces a minha tia Rosário, conversadeira com'ela não há! Gosto de ti moça, se quiseres mikar aqui tás à vontade! Bem me dizia o compadre Aurélio, a néti é como a casa da Idalina, nunca se sabe quem lá está! Beijinhos

mWoman: gosto disto! Uma gaja que sabe o que quer só pode ser alentejana! Se tiveres nascido noutro sítio acredita que foi por mero acaso, o Alentejo vai do rio Minho ao Guadiana...

11/17/2005 12:13 da manhã  
Blogger Aromas Do Mar said...

Ai, que bom que me trouxeste até cá, serei assídua, é uma certeza!

Beijo da mar revolto

11/17/2005 8:09 da tarde  
Blogger UGAJU said...

mar revolto/mar azul: re...volto? Claro, volta sempre mar azul!

11/18/2005 5:12 da manhã  

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