segunda-feira, novembro 07, 2005

Paris c'est toujours Paris!

Recebi hoje uma carta do meu primo Ramiro que está emigrado em França vai pr’a 30 anos. Nunca o conheci, mas ficou-lhe esta vontade de se corresponder com o meu avô e quem sou eu para lhe dizer qu’ele morreu há mais de 5 anos! Para desgosto já lhe basta a mulher que fugiu com um belga, problema maior sabendo-se que o Ramiro nunca gostou de camionistas, reacção natural de um taxista a acentuar a eterna luta de classes.

Querido tio
Desculpe não lhe ter escrito antes mas, a bem dizer, a minha vida continua numa grande aflição. Veja bem, o meu Elias vai fazer 18 anos e continua sem atinar. Vim eu procurar melhor vida e quer o destino que o meu filho não queira ser nada, nem taxista como o pai. À mãe já lhe perdi o rasto há mais de 10 anos, sei que vive para os lados de Bruxelas porque de quando em quando é de lá que envia um envelope com notas enroladas em elásticos a cheirar a perfume caro. A quem posso eu recorrer já que o bairro está em polvorosa? É verdade, isto aqui está pior do que os jogos da distrital quando íamos de cajados receber as visitas.
Voltando aos pendentes, entra-me o puto pela casa a dentro a dizer que queria dinheiro para petardos. Petardos, e eu sem saber que iam fazer festas cá no bairro; sim, porque aqui não conheço ninguém, nem quero, pois quando tentei fiquei sem a carteira e o relógio de bolso que herdei do meu avô, seu pai. Uma bela cebola que ele tinha recebido do espanhol nos tempos do contrabando. Recordo-me que dizia no verso “A mi amor, Filipe” que seria, segundo o espanhol, uma prenda da amada do capitão que jazia morto em Valência no meio de outros; maldita guerra civil que dos despojos fez do espanhol um homem rico.
Não é que me perco e já não conto o que aqui me traz! Pois bem, dei o dinheiro ao Elias porque pensei de mim para mim, assim o puto deixa-se dos grafites; sabe tio, irrita-me ver escrito por todo o lado “Boss Elias”, como se o miúdo tivesse negócio próprio. Um dia até o apanhei a contrabandear farinha, mas ele já se deixou disso que a vida não está para bolos. Bem, ele lá comprou os petardos, coisa em grande pois eu pensei que a festa era coisa que se visse. Vai daqui e ouvi um estoiro, o abalo fez cair o retrato de minha mãe que não conhecia movimento desde que para cá vim morar. Fui à janela da sala, varanda é coisa de rico, e vi o meu táxi a arder. Caramba, anda um homem a arrear a vida toda e é isto que recebe em troca. Desci as escadas e dou com um bando de rapazes a gritar “Boss!” repetidamente. Perguntei-lhes o que se passava e disseram-me que tinham recebido ordens por SMS para atearem fogo a todos os táxis que vissem, pois tinham de destruir os meios de transporte dos ricos. Porra, o táxi é meu e quem lá anda até nem ganha muito que do aspecto fogem os outros. Pus-me a andar feito doido, aflito com o meu Elias, quando o vejo levado em ombros por magrebinos. Lá por o rapaz ter barba, tez bronzeada e se ter convertido ao islamismo no 11 de Setembro, isso não faz dele um marroquino, pois não?
Bem vistas as coisas, e depois de ponderar muito, não posso mentir. Estou orgulhoso do Elias. Já cá estou há 30 anos e foi preciso parir um francês para mostrar a este País que os emigrantes não são merda, coisa que eles têm como certo, basta lembrar-me como me tratam quando digo a parada do táxi, “Tout ça portugais? Merde!”
Espero que esteja tudo bem consigo e com os seus, pois com os meus é o que se vê, grande abraço nesses ossos*,
Ramiro

*Nem podia ele abraçar outra coisa...

17 Comments:

Blogger legivel said...

Bom...deixa-me cá recompor, que já há muito tempo que não me emocionava tanto. Raios! que até me vieram as lágrimas aos olhos (sim´, lágrimas e então? é feio um homem chorar?! era o que faltava!!; neste país cada vez se chora mais. Do treinador do Sporting -quando acabou a carreira de jogador, até ao Sampaio -sempre de lágrima fácil a espreitar, por que carga de água eu não haveria também de chorar?!) mas esta carta é bem o espelho da vida de um português a labutar valentemente em terra estranha, mas que não verga e com o azar de o filho não querer vergar a mola. A narrativa atinge o ponto alto, quando o chavalo lhe pede dinheiro para ir comprar petardos. Cum caneco! A malta nova cada vez está mais afoita. No meu tempo eram garrafinhas de mau cheiro, porra! O que isto evoluiu! Mas no caso vertente deve ser dos ares das Franças; há pouco sol, o pessoal fica pálido e apático e vai daí, vá de queimar carros e outras cenas que é para se aquecerem.
E o mais interessante é a conversão ao islamismo; tivesse esta família (infelizmente amputada?! da trave mestra da educação do jovem) a viver no nosso Portugal o rapaz nesta altura do campeonato, integrava a claque de um dos grandes, lúdicamente entretido a dar cabo de combóios, camionetas e estações de serviço aquando das viagens aos clubes adversários e uma vez por ano, pelo menos, ia a Fátima. Rezar por quem ou fazer o quê, isso não me perguntem, que não sou bruxo.
Como é que um pai, perde as estribeiras é fácil de adivinhar, face aos azares que lhe sucedem. E acaba por perder também o tino porque já sente orgulho no filho!
Repito, estou emocionado.
Ainda bem que editaste esta carta. Quando receberes mais destas, avisa.

11/07/2005 11:54 da tarde  
Blogger Humor Negro said...

Há coisa de um mês atrás estive em Paris e a dada altura saí do hotel para apanhar um taxi e ir jantar com amigos.Entro no carro e acto contínuo o taxista pergunta, em bom português: «Então é práonde?». Nunca tinha sido topado por um taxista no estrangeiro. Acham sempre que sou italino. Estava na presença de um ser superior.
(Por falar nisso recomendo a Razão do Taxista, algures no meu blog - talvez no mês de Março de 2005). Abraço.

11/08/2005 1:11 da manhã  
Blogger segurademim said...

... mas este post é surreal! belisca-me aí! será que li o que li? boss elias ahahahah
aqui nos suburbios da Lisboa - costa da caparica city - no meu prédio está graffitado: «raio que os parta» assinado XÔ;
isto tem-me dado volta à cabeça... achas que devo estacionar o carro em cacilhas??
voltando aos pendentes: adorei!!

11/08/2005 8:15 da manhã  
Blogger Adryka said...

Ouve ó meu cromo vim aqui e gostei do teu blog ...proposta: vamos ser amigos? queres :).
Então vens pedir bolo quando ele já está duro já foi ontem ...ai que tu passas-te. Beijokas

11/08/2005 10:11 da manhã  
Blogger A.J.Faria said...

Mas, que grande história!
Peripécias que fazem parte da rotina diária de muitas pessoas.
A integração social será sempre um problema de difícil resolução, tendo em consideração a forma como é abordada.
Um garnde abraço,

11/08/2005 7:08 da tarde  
Anonymous kabum said...

Hehe nice letter! :D

11/08/2005 9:49 da tarde  
Blogger Vagabundo said...

Ouve... isto está uma obra!!!Li e reli e vai dar ao mesmo, imaginação e uma mistura de um texto louco e iluminado.

abraço vagabundo

11/08/2005 9:51 da tarde  
Blogger UGAJU said...

legível: emociono-me quando vejo um gajo a chorar, por simpatia faço o mesmo vá-se lá saber porquê? Gostei da tua análise perfeitamente legível! Também me perco no teu blog, coisas de um sentimental! Abraço

humor negro: já me aconteceu o mesmo numa viagem de 1 dia a Paris e como tinha tempo entre 2 reuniões disse ao gajo, "tem 3 horas para passear comigo; quero ir...". Acabei a noite no Procope, quartier latin, com amigos num jantar memorável!

segura de mim: se tens carro... preserva-o. Coloca um Al Corão num local visível! Quanto ao resto, volta sempre! Segura-te!

adrika: ouve ó tia, podes contar comigo! Quanto ao bolo basta embebê-lo em vinho! Beijocas

a.j.faria: já tenho a solução; enviamos os inadaptados para a ilha do Corvo, parece que têm falta de gente e, assim como assim, nada-se menos para alcançar a costa dos EUA. Abraço

kabum: quite! I hope he'll post some more! Thanks!

vagabundo: vindo de ti isto obriga a colocar uma velinha na sagrada família que temos num nicho à entrada da terra! Abraço cigano

11/08/2005 10:04 da tarde  
Blogger mfc said...

Está jocoso, irónico e muito,mas muito bem trabalhado.
Os meus parabéns para quem assim escreve.

11/08/2005 11:50 da tarde  
Blogger MWoman said...

Com tanta emoção vim precavida.

Não trouxe petardos, trouxe lenços!

Bolas, homem, ai desculpa, gajo, tu escreves bué da bem!

11/09/2005 12:31 da manhã  
Blogger Papo-seco said...

O que eu tenho andado a perder....

Uma Maravilha este texto

11/09/2005 9:47 da manhã  
Blogger dislexico anonimo said...

Genial! Je avai rir avec tous les dentes.

11/09/2005 11:57 da manhã  
Blogger Marco Ferreira said...

Que grande peripécia esta. Está genial este enquadramento, na realidade que se passa em Paris e agora já mais alastrado para Alemanha e outros.

Parabéns.

marinheiroaguadoce em mais uma navegação

11/09/2005 12:48 da tarde  
Blogger Cristina said...

lol uma carta bem original de um imgigrante fora do seu país. Quanto ao comentário do Humor, os Portugueses estão espalhados pelo mundo inteiro. Eu tenho viajado por vários, e a cada um que visito, encontro sempre Portugueses
;)
beijinhuuu

11/09/2005 12:56 da tarde  
Blogger UGAJU said...

mfc: depois disto um gajo nem sabe o que dizer, quanto mais escrever. Sendo tu um gajo grande, só te posso agradecer o exagero! Abraço

mwoman: isto vindo d'uma gaja promete... se os lenços não forem brancos, porque se forem vou-me como se foi o Peseiro! Toma lá um beijo dado com estes beiços!

papo-seco: serás sempre bem vindo! Trazes o papo-seco que nós damos a pinga! Abraço

disléxico anónimo: ça fait combien... je parle des dents? Abraço

marco ferreira: ainda não chegou aqui à aldeia, mas se chegar eu aviso! Abraço

nita4ever: nada como ser uma emigrante para se sentir mais estas coisas da exclusão; é assim em todo o lado, e nós não somos diferentes com os nossos romenos, ucranianos, cabo-verdianos,... Beijos

11/09/2005 7:07 da tarde  
Blogger Elise said...

os meus primos franceses queixam-se que em frança não são considerados franceses e em portugal não são considerados portugueses. apesar do racismo latente e de alguma exclusão, hoje são licenciados e membros produtivos da sociedade. souberam aproveitar as oportunidades e não deram azo a muitas das suas frustrações.
abraço

11/10/2005 3:44 da tarde  
Blogger UGAJU said...

elise: os portugueses, regra gerakl, integram-se bem! Nós somos um povo pacífico, prestável e sem grandes ambições!

11/10/2005 6:03 da tarde  

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